Você não mudou nada na sua operação. O fornecedor é o mesmo. O produto é o mesmo. O volume do pedido é o mesmo. Mas a nota fiscal de 2026 vai ser maior do que a de 2025.
E não vai ter uma linha explicando por quê.
O custo de importar mudou — e mudou em várias frentes ao mesmo tempo. Frete, impostos e câmbio: cada um desses elementos se moveu em 2026, e o movimento de um amplifica o efeito do outro. Para o empresário que importa sem acompanhar essas variáveis de perto, a surpresa vem sempre na hora errada.
Este artigo explica o que mudou, por que importa para o seu negócio e o que dá para fazer antes do 2H começar.
O frete que subiu 300% — e o imposto que veio junto
O frete marítimo de containers da Ásia para o Brasil estava em torno de USD 900 por container no início de 2024. Em junho de 2026, o mesmo trajeto custa entre USD 4.800 e USD 5.800.
Isso é uma alta de mais de 300% em 18 meses.
Mas o impacto não fica só no frete. No Brasil, o imposto de importação é calculado sobre o valor do produto mais o custo do frete. Isso significa que quando o frete sobe, a base do imposto sobe junto — e o imposto que você paga também sobe, mesmo que o produto tenha o mesmo preço do fornecedor.
Para entender na prática: um container com USD 3.000 a mais de frete pode gerar R$ 10.000 ou mais de imposto adicional, dependendo da alíquota do produto. Em um pedido de 10 containers, esse imposto extra pode ultrapassar R$ 100.000.
E o produto não mudou. O fornecedor não mudou. Só o frete mudou — e ele trouxe o imposto junto.
Por que o frete subiu tanto? Dois motivos principais. A instabilidade na rota pelo Mar Vermelho fez navios passarem a contornar a África — isso adiciona até 14 dias à viagem e aumenta o custo operacional das empresas de frete. Segundo, a demanda por containers cresceu mais rápido do que a capacidade disponível, gerando escassez de espaço e alta nos preços.
A projeção para 2026 é que o frete continue acima do patamar de 2024. Não dá para planejar esperando ele voltar ao valor antigo.
A tabela de impostos que mudou em fevereiro — sem aviso
Em fevereiro de 2026, o governo revisou as alíquotas de importação de mais de 1.200 categorias de produtos.
O foco da revisão foi em bens de capital — máquinas e equipamentos industriais — e produtos de informática. Itens que antes tinham alíquota zero ou muito baixa passaram para 12%, 20% ou 25%.
O que isso significa na prática: uma empresa que importava máquinas com 0% de imposto pode estar pagando 12% ou mais agora. O produto é o mesmo. O fornecedor é o mesmo. Mas o custo de trazer para o Brasil mudou.
O problema é que essa revisão não chega por e-mail. Não tem notificação automática para o importador. A tabela muda — e quem não está acompanhando continua planejando com o número antigo. Até aparecer na nota fiscal.
Verificar a categoria do produto na tabela atualizada é um dos pontos que a Desiderata revisa junto com cada cliente antes de fechar novos pedidos. Uma revisão que leva 30 minutos pode evitar uma surpresa de dezenas de milhares de reais.
Câmbio: por que esperar pode custar mais
“Quando o dólar baixar, a gente importa.”
Essa decisão é razoável. O câmbio afeta o custo — importar com dólar em R$ 5,80 é diferente de importar com dólar em R$ 6,30. Faz sentido monitorar.
O problema está em dois pontos que raramente aparecem no cálculo.
O imposto é calculado no dia do registro, não no dia do pedido.
Quando você fecha o pedido com o fornecedor, o câmbio do dia é uma referência. Mas o imposto de importação é calculado no dia em que a declaração é registrada no sistema — semanas depois, quando a mercadoria chega. Se o câmbio subiu nesse intervalo, o imposto sobe junto. Você planejou com um câmbio, paga com outro.
Enquanto você espera, o frete não espera.
O frete marítimo sobe e desce com a demanda. Se você adia o pedido esperando o câmbio, pode encontrar um frete mais caro na semana seguinte — e o ganho de câmbio some.
Além disso: o estoque diminui durante a espera. Quando o dólar finalmente cai, a pressão para importar é maior — e isso reduz o poder de negociação com o fornecedor.
A estratégia de esperar o câmbio ideal raramente sai mais barata do que planejar com o câmbio atual e uma margem de segurança embutida.
O que revisar antes do 2H começar
Julho marca o início do segundo semestre. É o momento de revisar o planejamento de importação com os números que o mercado tem hoje.
Três pontos a verificar antes de fechar o próximo pedido:
1. Custo atualizado de frete
Peça cotação atualizada antes de calcular o preço final. O número que estava no planejamento de 2025 pode estar errado em 300%. Uma cotação atual leva menos de um dia e muda toda a análise de viabilidade.
2. Categoria do produto na tabela atual
Confirme se a categoria do produto não mudou em 2026. Isso é especialmente importante para quem importa máquinas, equipamentos ou eletrônicos — os segmentos mais afetados pela revisão de fevereiro.
3. Custo total com câmbio atual
Recalcule o custo de importação com o câmbio atual, mais uma margem de segurança de 5–8% para variações durante o 2H. Esse cálculo — produto, frete, imposto e câmbio — é o que define se a importação vai ter margem ou não.
Conclusão
O mercado de 2026 não é o de 2024. Frete, impostos e câmbio se moveram — e continuam se movendo.
O empresário que importa sem revisão periódica desses três elementos está planejando com dados antigos. Não é descuido: é falta de quem monitore e avise antes que o impacto apareça na nota fiscal.
Esse é o papel de um parceiro de comércio exterior que funciona de verdade: não só cuidar do processo de importação, mas monitorar o custo e avisar quando algo muda.
Antes do próximo pedido, vale revisar os números com quem conhece o mercado atual. Fale com a Desiderata.





